O Tratamento da Depressão pela Acupuntura

Artigo: O Tratamento da Depressão pela Acupuntura
Autora: Renata Marcondes.
Fonte: Centro Brasileiro de Acupuntura

Autora: Renata Marcondes

RESUMO

A acupuntura, arte milenar, não classifica as doenças tão restritamente como estamos acostumados aqui no ocidente. Para a acupuntura chinesa não existe uma doença, mas sim um doente que necessita de um tratamento geral. O tratamento por pontos de acupuntura sistêmica e moxabustão, conforme sua função e localização visa normalizar o sistema de canais energéticos, aliviar sintomas digestivos e extra digestivos, fortalecer energia fonte, expulsar fatores patogênicos e normalizar a circulação vital de Qi. O objetivo desse estudo foi o de realizar uma revisão bibliográfica em pesquisa cientifica. O presente estudo demonstrou que a acupuntura apresenta uma influência profunda sobre os problemas emocionais e mentais, sendo recomendável a combinação dessa técnica com outros tratamentos, mostrando um potencial promissor na utilização da acupuntura como tratamento da depressão.

Palavras: chave: acupuntura, depressão, tratamento, transtornos de humor, síndromes depressivas.

ABSTRACT

Acupuncture, ancient art, does not classify the disease as strictly as we are used to here in the West. For Chinese acupuncture there is not a disease but a patient in need of a general treatment. Treatment for systemic points of acupuncture and moxibustion, according to their function and location aims to standardize the system of energy channels, relieve digestive and extra digestive symptoms, strengthen energy source, expel pathogenic factors and normalize the vital flow of Qi. The aim of this study was to conduct a literature review in scientific research. This study showed that acupuncture has a profound influence on the emotional and mental problems, and recommended combining this technique with other treatments, showing a promising potential in the use of acupuncture as a treatment for depression.

INTRODUÇÃO:

A acupuntura, hoje praticada em muitos países ocidentais, teve sua origem na antiga China há milênios. Secretaria Municipal de Saúde (2002). A acupuntura, nos países orientais, tem sido exercida por profissionais técnicos, médicos orientais e médicos com formação ocidental, porém especializados em Medicina Tradicional Chinesa (MTC).

A Organização Mundial de Saúde define: o completo bem-estar – físico psíquico e social e não simplesmente a ausência de doença – seja tão antiga quanto o homem, o terceiro milênio parece ter-se iniciado com a esperança e com o desejo de se viver mais, porém de forma digna, independente e sem as contínuas moléstias que acometem o ser humano ao longo de seu desenvolvimento. Organização Mundial de Saúde (2004).

A Organização Mundial de Saúde (OMS) concede e incentiva seu uso pelos países membros, tendo sido criado um documento intitulado Estratégia da OMS sobre Medicina Tradicional (MT) 2002-2005, com vistas ao desenvolvimento de políticas para a implantação de MT, estabelecendo requisitos de segurança, eficácia, qualidade, uso racional e acesso. Freitas GF (2003).

Deste modo, a organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece o uso da acupuntura para vários tipos de patologias, como, por exemplo, enxaquecas, depressão, problemas gastrointestinais, alergias e dores diversas. Além disso, vários estudos têm demonstrado que a acupuntura apresenta uma influência profunda sobre os problemas emocionais e mentais, sendo recomendável a combinação dessa técnica com outros tratamentos.

No Brasil a história da acupuntura sempre envolveu certa aura de mistério, tais as marcantes diferenças existentes entre a Medicina Tradicional Chinesa e a ocidental. Hoje a milenar terapia das agulhas, que já foi taxada inadvertidamente até como charlatanismo e curandeirismo, é reconhecida por oito Conselhos Federais de Saúde como especialidade. Reconhecimento este, plenamente legitimado, pelo imenso apoio popular e ações governamentais obtidas em nosso país.
A acupuntura tem sido defendida como especialidade médica pelo Conselho Federal de Medicina, considerando a acupuntura especialidade médica, entretanto, foi aceita como especialidade no âmbito dos Conselhos de outras categorias profissionais de saúde. Tem sido exercidos por praticantes de acupuntura com formação no exterior, por práticos com formação em cursos livres no Brasil, técnicos de acupuntura e especialistas em acupuntura, gerando dilemas ético-legais quanto a quem tem o direito ao exercício dessa terapêutica no país.

Na Enfermagem, os questionamentos éticos têm provocado reflexões críticas acerca dos valores, liberdade de ação, consciência, enquanto fundamentos e princípios profissionais, envolvendo juízos, crenças e convicções. Conselho Federal de Enfermagem (1997).

Nessa ótica, há questionamentos éticos e legais na Enfermagem sobre a prática da acupuntura e os enfermeiros precisam participar do processo de regulamentação da profissão da acupuntura e de sua prática como especialidade, sob pena de se verem alijados da possibilidade de exercê-la.
O COFEN estabelece e normatiza o exercício da enfermagem e desde a sua criação, de acordo com a Lei nº 5.905/1973, é o órgão que possui competência legislativa para a enfermagem, por meio de resoluções, que têm força de lei (embora não sejam leis). Tem validade e eficácia, pois não contraria a Lei do Exercício Profissional de Enfermagem (LEPE n.º .488/1986), estabelecendo a acupuntura como especialidade Conselho Federal de Enfermagem (1997).

O Conselho Federal de Enfermagem (COFEN) reconhece a acupuntura como especialidade pela Resolução n.º 197/97.

É evidente que proporcionar saúde física e mental constitui uma tarefa bastante árdua, em virtude das inúmeras variáveis presentes na determinação de melhor condição de vida à população, como o acesso à informação, à educação, às boas condições de moradia e outras que sempre fazem parte das promessas políticas e que infelizmente, em nosso meio, são pouco cumpridas.
A despeito dos inegáveis avanços da ciência em todas as áreas do conhecimento, onde os estudos têm propiciado maior expectativa de vida humana na maior parte das culturas, a falta de saúde tanto física quanto mental é ainda um dos problemas que insistem em desafiar os estudiosos, os especialistas e os responsáveis por políticas públicas na busca de soluções eficazes e eficientes, capazes de serem implementadas para um grande número de pessoas.
Nesse sentido, a organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece o uso da acupuntura para vários tipos de patologias, como, por exemplo, enxaquecas, depressão, problemas gastrointestinais, alergias e dores diversas. Além disso, vários estudos têm demonstrado que a acupuntura apresenta uma influência profunda sobre os problemas emocionais e mentais, sendo recomendável a combinação dessa técnica com outros tratamentos.

Os chineses descreveram cerca de 1.000 pontos de acupuntura, dos quais 365 foram classificados em catorze grupos principais. Todos os pontos que pertencem a um dos grupos são ligados por uma linha imaginária na superfície do corpo denominada meridiano. Os doze meridianos principais controlam o pulmão, o intestino grosso, o estômago, o baço, o coração, o intestino delgado, a bexiga, o rim, o pericárdio, o “triplo-aquecedor”, a vesícula e o fígado. ZUNKEL, GM (2003).
Existem também dois meridianos localizados no centro do corpo, um que passa pela frente e outro pelas costas. Todos os pontos de acupuntura ao longo destes meridianos afetam o órgão mencionado, mas não necessariamente da mesma maneira. Para os chineses tradicionais, nosso organismo é formado de matéria e energia e é justamente a parte energética, a força vital ou Qi que circularia nestes meridianos e todas as doenças seriam conseqüentes a um distúrbio da circulação do Qi. Embora este conceito tenha norteado a prática da acupuntura ao longo destes milhares de anos é um pouco metafísico demais para ser compreendido e aceito pelo mundo científico atual. BALLONE, GJ (2008).

A acupuntura, através dos estímulos produzidos pelas agulhas, faz com que o organismo crie condições internas para retorno de seu equilíbrio e alivio de suas desordens, sem o emprego do uso de medicamentos, levando a outras vantagens como a ausência de efeitos colaterais. ZUNKEL, GM (2003).

A depressão figura como uma das principais formas de manifestação do sofrimento psíquico presente na contemporaneidade, sendo comum a referência a este período como “era das depressões”, em comparação ao final do século XIX, que foi marcado pela histeria KAPLAN, HI; SODOCK, BJ; GREBB, JÁ (2003).

Os sintomas da depressão interferem drasticamente com a qualidade de vida e estão associados a altos custos sociais: perda de dias no trabalho, atendimento médico, medicamentos e suicídio.
O termo depressão mental não existe em medicina chinesa. Ele é ocidental e não se origina de uma classificação específica segundo a dialética da MTC. Ele é associado à diferentes doenças tradicionais englobadas em um mesmo conceito Yu Zheng (síndrome depressiva).
Para entendermos bem o diagnóstico e o tratamento da depressão mental, é necessário rever medicina interna: San Bei – tendência à tristeza, Yu Zheng – síndrome depressiva, Zang Zao – depressão histérica, Bai He Bing – doença do “bulbo de lis”, Mei He Qi-sindrome do caroço de ameixa e Dian – psicose depressiva, que não recobrem mais que 20 categorias diferentes de depressão. AUTEROCHE, B; NAVAILH, P (1992).

De acordo com Salomon (2002): Um interesse social em dizer que a depressão é causada por processos químicos internos que estão de algum modo além do controle do afligido… É nesse contexto que os remédios antidepressivos se tornaram tão popular. Se sua função é interna e relativamente incompreensível, devem afetar algum mecanismo impossível de controlar através da mente consciente. É como ter um motorista: você simplesmente se senta relaxado no banco de trás e deixa alguém enfrentar os desafios dos sinais do trânsito, policiais, mau tempo, regras e desvios por você. (p.307)

Com o avanço da ciência biomédica, o tratamento dos transtornos depressivos e afetou dramaticamente o curso dos transtornos de humor, além de reduzir os custos que impõem à sociedade. DSM (2015).

As drogas terapêuticas para o tratamento da depressão são os antidepressivos e a escolha do tratamento e medicamento específico, em uma determinada situação clínica, baseia-se principalmente na determinação da resposta terapêuticas prévia à medicação, na consideração dos possíveis efeitos colaterais, na história da resposta à concorrentes ou de transtornos psiquiátricos, que possam indicar uma opção específica de tratamento com antidepressivos.
Iniciada a medicação antidepressiva, exige-se a avaliação e monitorização cuidadosa da dose e das respostas iniciais, e revisão do tratamento com o cliente logo após seu início, o aumento gradual da dose até níveis terapêuticos e a avaliação semanal da resposta clínica durante o tratamento. O objetivo final da farmacologia é a remissão completa dos sintomas. BERTOLUCCI, 2005.

A depressão é citada por muitos como sendo a doença do século na medicina ocidental, devido o mundo moderno. Segundo a Organização Mundial da Saúde, neste inicio do século XXI, a depressão representa a quarta maior causa de perda de anos de vida sadios. Além disso, é classificada como sendo a doença que mais incapacita o ser humano e gera um risco de vida por suicídio de até 15%. SOLOMON (2002).

De uma forma geral, as pessoas normalmente experimentam uma ampla faixa de humores, que podem variar entre normal, elevado ou deprimido e tem um repertório igualmente variado de expressões afetivas. Elas sentem-se no controle de seus humores e afetos. Os transtornos do humor constituem um grupo de condições clínicas caracterizadas pela perda deste senso de controle e uma experiência subjetiva de grande sofrimento. Guy (1998).

A Organização Mundial de Saúde (OMS), através da Classificação Internacional de Doenças (CID – 10), a depressão, em seus episódios típicos, implica em um humor deprimido, perda de interesse e prazer nas atividades, energia diminuída e processos de culpa ou negativismo YAMAMURA (2001).
A Sociedade Brasileira de Psiquiatria Clínica define depressão como uma doença que afeta pensamentos, sentimentos, saúde e comportamento. A doença é constante. Pessoas deprimidas apresentam determinados sintomas quase que diariamente, a maior parte do dia, por um período mínimo de duas semanas MACIOCIA (1996).

Para caracterizar o diagnóstico de depressão, devemos considerar segundo o DSM-IV, Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 4ª edição, os critérios abaixo: (VARELLA 2003)

 Estado deprimido: sentir-se deprimido a maior parte do tempo;
 Anedônia: interesse diminuído ou perda de prazer para realizar as atividades de rotina;
 Sensação de inutilidade ou culpa excessiva;
 Dificuldade de concentração: habilidade freqüentemente diminuída para pensar e concentrar-se;
 Fadiga ou perda de energia;
 Distúrbios do sono: insônia ou hipersônia praticamente diárias;
 Problemas psicomotores: agitação ou retardo psicomotor;
 Perda ou ganho significativo de peso, na ausência de regime alimentar;
 Idéias recorrentes de morte ou suicídio.

Os 6 principais tipos de depressão na Medicina Ocidental, são eles:

1 – Depressão Maior: Os pacientes com este tipo de depressão apresentam pelo menos 5 dos sintomas listados a seguir, por um período não inferior a duas semanas:

 Desânimo na maioria dos dias e na maior parte do dia (em adolescentes e crianças há um predomínio da irritabilidade).
 Falta de prazer nas atividades diárias.
 Perda do apetite e/ou diminuição do peso.
 Distúrbios do sono – desde insônia até sono excessivo – durante quase todo o dia.
 Sensação de agitação ou languidez intensa.
 Fadiga constante.
 Sentimento de culpa constante.
 Dificuldade de concentração.
 Idéias recorrentes de suicídio ou morte.

Devem ser observados outros pontos importantes: os sintomas citados anteriormente não devem estar associados a episódios maníacos (como na doença bipolar); devem comprometer atividades importantes (como o trabalho ou os relacionamentos pessoais); não devem ser causados por drogas, álcool ou qualquer outra substância; e devem ser diferenciados de sentimentos comuns de tristeza. Geralmente, os episódios de depressão duram cerca de vinte semanas (17).

2- Depressão Crônica (Distimia): A depressão crônica leve, ou Distimia, caracteriza-se por vários sintomas também presentes na Depressão Maior, mas eles são menos intensos e duram muito mais tempo – pelo menos 2 anos.

Os sintomas são descritos como uma “leve tristeza” que se estende na maioria das atividades. Em geral, não se observa distúrbios no apetite ou no desejo sexual, mania, agitação ou comportamento sedentário. Pensamentos suicidas não são comuns. Talvez devido à duração dos sintomas, os pacientes com depressão crônica não apresentam grandes alterações no humor ou nas atividades diárias, apesar de se sentirem mais desanimados e desesperançosos, e serem mais pessimistas. Os pacientes crônicos podem sofrer episódios de Depressão Maior (estes casos são conhecidos como depressão dupla. Organização Mundial de Saúde (2004)

3 – Depressão Atípica: as pessoas com esta variedade geralmente comem demais, dormem muito, sentem-se muito enfadadas e apresentam um sentimento forte de rejeição. Organização Mundial de Saúde (2004)

4 – Distúrbio Afetivo Sazonal (DAS): este distúrbio caracteriza-se por episódios anuais de depressão durante o outono ou o inverno, que podem desaparecer na primavera ou no verão – quando então tendem a apresentar uma fase maníaca. Outros sintomas incluem fadiga, tendência a comer muito doce e dormir demais no inverno, mas uma minoria come menos do que o costume e sofre de insônia. Organização Mundial de Saúde (2004).

5 – Tensão Pré-menstrual (TPM): há depressão acentuada, irritabilidade e tensão antes da menstruação. Afeta entre 3% e 8% das mulheres em idade fértil. O diagnóstico baseia-se na presença de pelo menos 5 dos sintomas descritos no tópico Depressão Maior na maioria dos ciclos menstruais, havendo uma piora dos sintomas cerca de uma semana antes da chegada do fluxo menstrual, melhorando logo após a passagem da menstruação. Organização Mundial de Saúde (2004).

6 – Pesar: os sintomas de pesar e da depressão possuem muito em comum. Na verdade, pode ser difícil diferenciá-los. O Pesar, contudo, é considerado uma reposta emocional saudável e importante quando se lida com perdas. Normalmente é limitado. Nas pessoas sem outros distúrbios emocionais, o sentimento de aflição dura entre três e seis meses. A pessoa passa por uma sucessão de emoções que incluem choque e negação, solidão, desespero, alienação social e raiva. O período de recuperação consome outros 3-6 meses. Após esse tempo, se o sentimento de pesar ainda é muito intenso, ele pode afetar a saúde da pessoa ou predispô-la ao desenvolvimento de uma depressão propriamente dita. DSM (2015).

Fatores de risco para depressão:

 História familiar de depressão;
 Sexo feminino;
 Idade mais avançada;
 Episódios anteriores de depressão;
 Parto recente;
 Acontecimentos estressantes;
 Dependência de droga

O quadro de depressão podem se impulsionar por problemas psicossociais como a perda de uma pessoa querida, do emprego ou o final de uma relação amorosa. No entanto, até um terço dos casos estão associados a condições médicas como câncer, dores crônicas, doença coronariana, diabetes, epilepsia, infecção pelo HIV, doença de Parkinson, derrame cerebral, doenças da tireóide e outras. Diversos medicamentos de uso continuado podem provocar quadros depressivos. Entre eles estão os anti-hipertensivos, as anfetaminas (incluídas em diversas fórmulas para controlar o apetite), os benzodiazepínicos, as drogas para tratamento de gastrites e úlceras (cimetidina e ranitidina), os contraceptivos orais, cocaína, álcool, antiinflamatórios e derivados da cortisona.

A visão oriental, e mais recente a neurociência, vem mostrando que existe uma energia que circula dentro de nós e interage com o ambiente, portanto a terapia oriental não trata o sofrimento e o pesar, mas atingem áreas mais profundas, no local onde está a luz interior, que se chama felicidade.

A Medicina Tradicional Chinesa entende que o bom funcionamento (saúde) do ser depende do bom equilíbrio entre estas duas forças que são antagônicas, porém sua oposição acaba por criar um equilíbrio dinâmico tanto o yin como o yang tem, cada um, suas funções quando estão em mesmo nível energético, um controla o outro, porém quando um se sobressai em relação ao outro ocorre o desequilíbrio, ou seja, ocorre a doença, a acupuntura refaz o equilíbrio natural BALLONE (2008).

O Shen é um termo genérico de todas as atividades vitais do corpo humano, incluindo o ânimo, o pensamento, além das atividades intelectuais. Portanto o Shen em equilíbrio representa a boa saúde, a felicidade e a vida se coordenam e se unifica com o conturbado meio externo. Qualquer dano ou excessivo estímulo emocional pode prejudicar a saúde tanto a nível físico quando a nível espiritual, provocando enfermidades. MACIOCIA (1996).

As atividades mentais, bem como as demais atividades vitais, são também produtos das atividades funcionais dos órgãos e das vísceras. O coração (Xin), por exemplo, controla o sangue e os vasos. O sangue (Xue) é a principal base material das atividades mentais do corpo humano; por essa razão, o Coração também é responsável pelo controle das atividades mentais. BERTOLUCCI (2005).

O estado da mente também afeta o Qi e Essência, se a mente estiver perturbada por stress emocional, se tornando infeliz, deprimida, ansiosa ou instável, irá definitivamente afetar primeiramente o Qi e/ou a essência. Na maioria dos casos, irá afetar o Qi em primeiro lugar, uma vez que o stress emocional perturba o funcionamento normal do Qi. O stress emocional tenderá a enfraquecer a Essência, quando combinado com o trabalho excessivo e/ou atividade sexual excessiva, quando o Fogo gerado pelas tensões emocionais em longo prazo prejudica o Yin e a essência. YAMAMURA (2001).

Ao falarmos sobre as causas e mecanismos patológicos, podemos citar a função do fígado que é facilitar a drenagem, a circulação fluida do Qi, do Sangue, das emoções no corpo todo. Além disso, ele abriga a Alma Etérea (Hun), a Consciência Espiritual. A dupla Fígado-Hun participa do dinamismo psíquico e espiritual do indivíduo.

A Alma Etérea (Hun) ama a vida e favorece o nosso impulso vital. É o instrumento que coloca em movimento nossos desejos nobres e nossas paixões. Ela governa nossas pulsões de vida, gerencia nossos reflexos de vida através de nossos pensamentos, nossas palavras, nossas ações. Ela permite a troca, a comunicação, a expressão de nossas vontades, de nossas idéias. Ela ativa nossas relações de vida.

A Alma Etérea (Hun) é o instrumento que o Shen utiliza para se manifestar e se exteriorizar em toda a sua amplitude: inteligência, espiritualidade, intuição, sonhos, instrospecção, criatividade, imaginação, respeito, amor à vida, entusiasmo pela vida, idéias, palavras.

O ser humano tem necessidade de viver em grupo e em sociedade. Este tipo de organização força o indivíduo a fazer concessões em relação ao resto do grupo. A educação nos impões limitações, regras que nos obrigam a controlar nossos impulsos para tornar possível nossa vida em comunidade. A sociedade com suas regras e suas leis, a educação com seus imperativos estão lá para refrear, atenuar e controlar o impulso vital, às vezes excessivo, da Alma Etérea (Hun) em relação ao projeto de viver em grupo.

Uma das principais consequências de um excesso de constrição da Alma Etérea (Hun) é que seu movimento ascendente inicial pode se tornar insuficiente, provocando uma estagnação do Qi do Fígado ou para ser mais exato na terminologia chinesa, uma sobre pressão do Fígado.

A repressão das emoções, as cóleras mantidas, as frustrações, as insatisfações, os ressentimentos que a vida em sociedade impõe pode levar, se forem muito intensos ou frequentes, à uma sobrepressão do Fígado. Este mecanismo pode também ser gerado por humilhações repetidas na vida a dois, no trabalho, na escola, etc. Isto provoca uma diminuição da fluidez da circulação do Qi e, claro, das emoções no corpo todo. Disto resultam distúrbios psiquícos múltiplos e depressões mentais por insatisfação, frustração repressão das emoções.

A depressão que pode se desenvolver aqui não é provocada pela tristeza, nem pelo excesso de problemas aos quais não se chega a uma solução, nem por uma agitação do Shen que não está mais ancorado pelo Sangue do Coração, nem pela ruptura da comunicação entre Coração e Rim, nem pela insufuciencia de força de realização do Zhi. Ela advém de uma raiva interior que é consequência de um excesso de controle que bloqueia o impulso vital do Fígado-Alma Etérea, necessário ao movimento de expansão do Coração-Shen, gerador de otimismo, harmonia e felicidade. Organização Mundial de Saúde (2004).

Esta depressão por frustração, por ressentimento, por humilhação e por “castração educativa” freqüentemente encontrada na prática clínica é acompanhada de um raiva sub-jacente, dificuldade de se organizar, de planejar, de manter uma regularidade e de respostas emocionais exarcebadas e frequentemente fragilizadas.

A raiva, as crises de exteriorização durante estes estados depressivos ou nas depressões declaradas representam uma válvula de segurança quando a pressão interna é muito grande. Estes indivíduos interiorizam suas emoções, deixam-nas se acumular como ressentimentos (nem sempre de forma consciente), impedem que essas emoções escoem até o momento onde elas se tornam insuportáveis. Eles são então obrigados a deixar sair um pouco do vapor emocional pressurizado. Mas como o controle da Alma Etérea é um dominante neste terreno, este vapor não poderá ser lançado em qualquer lugar na vida social. Isso acontece no meio onde é mais fácil relaxar: a família, os íntimos. Este processo está na origem de muitas desarmonias de casais e por isso, as separações. AUTEROCHE (1992).

A imposição do Fígado é freqüentemente favorecida ou acompanhada por uma deficiência de Sangue do Fígado. É no Sangue do Fígado que se ancora a Alma Etérea KAPLAN, HI; SODOCK, BJ; GREBB, JÁ (2003).

Toda deficiência de Sangue do Fígado pode induzir a uma desarmonia da Alma Etérea que se exprime por uma perturbação do Qi: uma subida excessiva, uma estagnação ou um movimento transversal em direção ao Baço ou Estômago, que são todos propícios à problemas psíquicos e depressões mentais. Portanto, levar em conta e, se for necessário, incluir na nossa estratégia terapêutica uma tonificação do Sangue além da dispersão do Fígado e da mobilização do Qi.

METODOLOGIA:

Esta revisão bibliográfica foi realizada em bancos de dados como: “Pubmed”, Biblioteca Cochrane, “Scielo”, “Lilacs”, livros didáticos, Internet entre outros. Na consulta por artigos indexados as palavras-chaves principais utilizados foram: acupuntura, depressão, tratamento, transtornos de humor, síndromes depressivas.

A característica da pesquisa indireta documental é que a pesquisa é realizada com o intuito de recolher informações prévias sobre o campo de interesse, onde a fonte de coleta de dados está restrita a documentos, escritos ou não, constituindo o que se denomina de fontes primárias.
Depressão ou estado depressivo ciclotímico – a depressão aparece após uma situação conflitante que induz à frustração, ressentimento, insatisfação, humilhação, repressão das emoções ou raiva interior – o terreno depressivo pode ter sido favorecido por uma educação muito rígida, restritiva, “castradora” Organização Mundial de Saúde (2004).

O indivíduo experimenta dificuldades em se organizar, planejar, manter regularidade – muitas vezes se manifestam respostas emocionais exarcebadas e desproporcionais – instabilidade emocional -suspiros freqüentes – às vezes acessos de choro (descompressão da tensão interior) – dor migratória e distensão do tórax, dos hipocôndrios, do baixo ventre – opressão epigástrica – eructação – distensão abdominal pós pranadial – inaptência – defecação irregular – menstruação irregular – TPM – distensão das mamas – saburra branca e fina – pulso em corda (Xian). KAPLAN (2003)

TRATAMENTO DE ACUPUNTURA

Tratamento e seus principais pontos:

 Deficiência – tonifica F8 e R10 e Sedar F4 e P8
 Excesso – Sedar F2 e C8 e Tonificar F4 e P8
 Merediano – Yin – F1
 Ponto de Alarme – F14
 Ponto Fonte – F3
 Ponto de Assentimento – B18

Tratamentos de base:

PC 5 (Jian Shi) associados, mobilizam o Qi e drenam o Fígado, eliminam a sobrepressãoão. F3 (Tai Chong) dispersam as estagnações no corpo todo.

F2 (Xing Jian) associados, estabilizam a Alma Etérea, tratam a depressão. B18 (Gan Shu)

Combinações:

PC 5 (Jian Shi) + F3 (Tai Chong) mobilizam fortemente o Qi, favorecem os mecanismos de subida e descida do Qi assim como uma circulação fluida de Qi no corpo todo (garganta, mamas, epigástrio, abdomen, hipocondrios, baixo ventre, órgãos genitais…). Associados, eles são muito eficazes para tratar as desordens psicológicas e as depressões devidas à sobrepressão do Fígado.
B18 (Gan Shu) + F2 (Xing Jian) acalmam o Shen, estabilizam a Alma Etérea, ancoram a Alma Etérea no Sangue do Fígado e tratam a depressão. Todos os pontos serão dispersados.

PC5 (Jian Shi) elimina a sobrepressão (Jie Yu), acalma o Coração, o Shen e a Alma Etérea. O uso de PC5 (Jian Shi) é essencial, porque ele tem uma dupla ação sobre o Fígado e sobre o Coração. Nós tratamos aqui uma depressão específicamente devida a um desequilíbrio do Fígado. Então, porque é necessário também haver uma ação sobre o Coração? Porque não importa o problema psíquico, não importa qual a síndrome relacionada, não importa o tipo de depressão, no final o Coração sempre sofrerá consequências. Não podemos esquecer que ele alberga a Mente (Shen) que organiza todo o conjunto das faculdades mentais, emocionais e espirituais. A ação psíquica de PC5 (Jian Shi) se explica da seguinte maneira: Trata-se de um ponto do Pericárdio que tem por função proteger o Coração. Esta proteção visa salvaguardar a circulação fluida do Qi do Coração. Porque quando o Qi do Coração circula bem, riso e alegria se manifestam (sinais de harmonia e saúde). O Su Wen afirma: “O Pericárdio é o embaixador de onde se emanam riso e alegria” . Lembremos também que PC5 (Jian Shi) é o ponto Luo dos 3 meridianos Yin da mão e que tem, portanto uma relação direta com o órgão Coração.

F3 (Tai Chong) não acalma o Shen. Ele estabiliza a Alma Etérea regularizando o Qi do Fígado o que previne a agitação do Shen. Este ponto tem uma excelente ação nas pessoas tensas interiormente ou que têm uma tendência a interiorizar as emoções ou que são simplesmente estressadas e muito solicitadas por uma atividade profissional, familiar ou social excessive. Com PC5 (Jian Shi), constituem uma formula simples mais eficiente.

F2 (Xing Jian) é provavelmente o ponto do meridiano do Fígado mais frequentemente indicado para os problemas emocionais nos clássicos de Acupuntura. É indicado para as psicoses Dian Kuang, a tristeza, o medo, o terror, a raiva, a insônia. Ele funciona incrivelmente bem porque é um ponto de extremidade do meridiano. Esta categoria de pontos é particularmente eficaz para drenar as estagnações ou os perversos ao longo do meridiano. Outro motivo é que um ramo do meridiano principal se dirige ao topo da cabeça onde se conecta com VG20 (Bai Hui) e o meridiano divergente (Jing Jin) atravessa o coração e penetra no cérebro.

B18 (Gan Shu) é ponto Bei Shu das costas. Age diretamente sobre o órgão fígado e é reconhecido por tratar eficazmente todos os desequilíbrios de Madeira, tanto no plano somático como psicológico. Dispersa o Fígado e elimina a sobrepressão, clareia o Fogo do Fígado, dispersa as estagnações de Sangue. É utilizado, particularmente, para a raiva que é um sinal chave para a depressão por estagnação do Fígado.

 Se a depressão é acompanhada de Deficiência de Sangue: compleição, lábios e língua pálidos, manchas brancas nas unhas, sonhos abundantes, dificuldades visuais, pulso fino (Xi), oligomenorréia, amenorréia, associar B17 (Ge Shu) em tonificação + BA6 (San Yin Jiao) em tonificação e B18 (Gan Shu) em tonificação, ao invés de dispersão.

 Se a depressão se acompanha de problemas digestivos tais como regurgitação ácida, nauseas, eructações frequentes, soluço, devidos à desarmonia do Fígado/Estômago, substituir PC5 (Jian Shi) por PC6 (Nei Guan) + BA4 (Gong Sun) em dispersão.

 Se a depressão se acompanha de problemas digestivos como plenitude e/ou dor no estômago devidas à uma desarmonia Fígado/Estômago (úlcera ou gastrite da pessoa estressada), substituir PC5 (Jian Shi) por PC6 (Nei Guan) + VC12 (Zhong Wan) em dispersão

 Se a depressão se acompanha de problemas digestivos tais como plenitude e dor abdominal, flatulência, borborigmo, fadiga pós-prandial, diarréia ou fezes moles com restos de alimentos devidos à uma desarmonia Fígado/Baço, substituir PC5 (Jian Shi) por PC6 (Nei Guan) em dispersão + E36 (Zu San Li) em tonificação.

 Em caso de colopatia da pessoa depressiva e tensa devido à uma desarmonia do Fígado/Baço, acrescentar E25 (Tian Shu) em dispersão + E36 (Zu San Li) em tonificação.

 Em caso de opressão do tórax, acrescentar VC17 (Dan Zhong) em dispersão

 Em caso de dor e tensão das mamas, VC17 (Dan Zhong) em dispersão ou ID 1 (Shao Ze) em dispersão.  Em caso de depressão acompanhada de desordens ginecológicas, acrescentar E29 (Gui Lai) em dispersão, (se for severa, + BA6 (San Yin Jiao) em dispersão)

 Em caso de sensação de nó ao nível do Plexo Solar, acrescentar VC15 (jiu Wei) em dispersão, (se severa + B17 (Ge Shu) em dispersão)

 Em caso de dor severa nos hipocondrios, acrescentar F14 (Qi Men) em dispersão.

 Em caso de depressão severa, insônia, agitação, acrescentar C7 (Shen Men) em dispersão ou PC7 (Da Ling) em dispersão

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A cultura profissional depende em grande parte do interesse e consciência daqueles que atuam e estão envolvidos no saber e fazer que caracterizam a profissão.

É fundamental ampliar os horizontes conceituais dos benefícios da técnica da acupuntura, com expansão da terapêutica para o enfermeiro nas universidades e instituições de saúde, públicas e privadas, para que se torne uma prática multiprofissional, compartilhada, ética, em benefício da população brasileira.

A acupuntura como complemento no tratamento da depressão, concluise que muito pode ser economizado nos tratamentos convencionais, muitos efeitos colaterais podem ser amenizados e o aumento da força de vontade do paciente tornará mais fácil sua recuperação, com menor sofrimento, através da acupuntura, pois a mesma, é uma ciência experimental cuja finalidade consiste na cura de doenças e na busca do equilíbrio do organismo e a comunidade científica agora aceita amplamente que a Acupuntura produz mudanças fisiológicas no corpo humano. Podemos afirmar que a Acupuntura promove o equilíbrio físico, biológico e mental, aumentando a produção de endorfina e serotonina, responsáveis pela sensação de bem estar, sem agredir o corpo e a mente, ajudando, portanto, no tratamento da depressão, haja vista, a mesma apresentar estado de alteração das emoções e do ânimo, que leva a alterações físicas, emocionais e mentais.

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Fonte: Centro Brasileiro de Acupuntura.

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